Depois da tosse comprida, do sarampo, da catapora, dos gessos, dos joelhos esfolados, dedões do pé topados e ralados no chão; depois das vacinas, das pipocas, das pipas, da primeira aquarela, dos doces de leite, dos pés-de-moleque e das missas de domingo; depois da primeira cartilha e das primeiras letras; depois das matinês e depois da primeira menstruação, o mundo começou a ficar sério, descolorizando a vida sem que a gente percebesse.
Seios crescidos, corpos mudado e lá estamos nós, adolescentes felizes para o mundo externo feito de namoricos, brincadeiras de garagem, piscinas e bailes no clube e muita maquiagem e completamente complicadas para o mundo interior. No externo, nos divertíamos, contestávamos nossos pais, enfim, sentíamos donos de nossos narizes, sem se sequer saber direito onde o próprio ficava. No mundo interno, eu pelo menos, sofri muito com as incoerências que comecei a me deparar no mundo repleto de discursos e práticas incompatíveis. Eu queria e sofria pela falta de explicação concreta para isso.
Para abafar meus questionamentos quase sempre depressivos, eu lia, lia, lia e desenhava, desenhava, desenhava e pintava, pintava, pintava. Mas tudo apenas como desabafo e para mim, só para mim. Havia um medo terrível de mostrá-los e todos descobrirem quem eu era na verdade, e especialmente, que achassem tudo feio.
Porém, eu lançava mão das personas (máscaras utilizadas nos teatros da Grécia Antiga), sem que eu me desse conta. As minhas máscaras eram feitas com a ajuda de sombras, rimel, batons, blush que me deixavam aparentemente alegre. E estas, todos que passavam por mim tinham que ver. E assim foi até que de repente, já estava na universidade, ganhando consciência crítica e nefasta e falsa sensação de que compreendia o mundo.
Por isso, quando vejo pessoas na faixa dos 20 aos 28, rio silenciosamente. Suas posturas tão cheias de certezas e verdades, beiram a ingenuidade. E eu logo me lembro do dramaturgo Nelson Rodrigues que disse: "Jovens envelheçam logo, antes que seja tarde". É a mais pura verdade, porque quando cheguei aos 30, tive um susto ao notar que meu horizonte ganhava outra cor, com transparência e nitidez. A impressão que tive é que a poeira havia baixado.
Mas ainda assim continuei achando que haviam respostas para as incoerências. E foi quando ao chegar aos 40 anos, vi que eu não precisava de resposta nenhuma porque elas existiam e pronto. O problema, era e sempre foi de quem nunca as buscou por completa ignorância. Passei a questionar então que há uma equação a ser construída ao longo da vida. Se fugirmos dela, optamos pelo auto-engano e este sim é destruidor porque nos leva a sermos falsos com a gente mesmo. Nada há de pior que isso.
Mas o assunto é crescimento e não destruição.Também aos 40 anos, diagnostiquei que além da poeira baixar, adquiri posturas estéticas seguras, como por exemplo, parar de pintar os cabelos.Poxa, logo eu que gostava tanto das cores, especialmente vê-los vermelho, resolvi abandoná-las.
Mas foi legal, porque voltei à maquiagem, mas sem a deprê. Realmente ando fazendo uma festa com minha cara e rindo dela também. Comprei várias sombras de cores diferentes e tenho me divertido com isso. E dias desses, me recordei que quando saia da adolescência, aos 19 anos, eu me submeti a mais uma cirurgia femural (nasci com um fêmur deslocado), e acabei tendo complicações que me deixaram um ano acamada. E um dos meus passatempos era pintar a cara e tirar, pintar e tirar, tirar e pintar.
Agora, beirando aos 50 entendo plenamente essa coisa de pintar me acompanhou sempre. Desconfio que minha tentativa de artista, foi completamente sufocada pela necessidade de trabalhar. E trabalhei anos nas redações dos jornais da vida, sem tempo para criar.
Hoje sei que se tivesse tido oportunidade, olharia mais para a criança que fui, respeitando mais a adolescente rebelde e deprê que fui, combateria a impáfia da jovem cheia de razão e verdade que fui. Teria me permitido a criar mais, sem medo e vergonha, como hoje, felizmente faço.
Basta a mínima vontade e lá estou eu recorrendo as minhas tintas e pincéis, porque como lhes disse, aos 40 eu deduzi que temos que enfrentar uma equação na vida: educação, informação, conhecimento e sabedoria. Ah,elas são interdepententes e não existem sem a ordem. Elas se impõem à nos. E apesar de pouquíssimo conseguirem chegar sábios à velhice, a mim isso não importa... O mais importante disso tudo é que magicamente meu mundo está deixando de ser descolorido, readquirindo os matizes alegres da infância, neste meu coloridíssimo início de Terceira Idade! Só que agora serão outras doenças, outros remédios....